tentativa de praticar a escrita a partir da criação de personagens antropomorfizados (ou não) que precisam encarar o tédio do dia-a-dia

28 de dez. de 2005

O camelo sonhador

Rodrigo era um camelo amarelo de pêlo vistoso, meio magrela, alto, e com dois calombos nas costas. Ele vivia no deserto, mas o que o diferenciava dos demais era o fato de ser manco — e por isso tinha de viver acorrentado, por clemência de seu dono (qual seria a utilidade de um camelo manco no deserto?).



Os dias de Rodrigo eram um tanto monótonos. Todo dia ele acordava e se debatia, numa tentativa desesperada de livrar-se da corrente (semelhante àquela de um condenado à forca em seu último dia de confinamento: qualquer esforço é válido para escapar da cela), seguida de uma dose hiper-realista de consciência (e de um leve sentimento de frustração, por se encontrar mais um dia com sua liberdade de ir e vir cerceada, seguido de mero conformismo). Uma vez por semana ele recebia pequenas doses de água ao longo do dia. Rodrigo tinha ódio do idiota que tinha espalhado o mito de que camelos não sentem sede porque vivem no deserto. Ele sentia sede, sim, muita sede. Mas infelizmente não tinha como exprimir isso para seu dono, e muito menos tinha como ir em busca de sua própria água. Às vezes ele seguia lambendo seu reservatório de água quando já vazio, como uma forma pouco original de tentar significar que ainda estava com sede. Mas seu dono não compreendia, e apenas ria da atitude maluca de seu camelo adoidado.



Nos demais dias da semana e nas demais partes do dia, o camelo se dedicava ao amor impossível por uma camela que avistava à distância. Muitas vezes ele até esquecia que estava acorrentado e tentava trotear em direção a ela — mas as pesadas correntes de ferro estavam ali, firmes e fortes, para trazê-lo de volta à realidade ao menor passo em direção ao movimento.



Ele sonhava com o dia em que estaria livre das correntes e pudesse correr em direção a sua amada. Seu sonho era puro, inocente. Mal ele sabia que, de fato, manifestava apreço por dois montes de areia. O que ele avistava era, na verdade, uma miragem. No horizonte podia-se ver duas dunas de areia, e à distância elas se pareciam com as curvas delicadas de uma linda camela. O engano de Rodrigo era totalmente justificável. Mas ele não percebia o quanto estava sendo enganado por sua própria visão (dizem que nossos olhos estão sempre condicionados por nosso cérebro a tentar localizar formas de pessoas em tudo o que vemos). E cada vez mais alimentava sua paixão impossível por uma camela que sequer existia. Ele não entendia que o horizonte é como o futuro: é algo que nunca chega. Ambos, quando atingidos, passam a ser outra coisa. Futuro vira passado, horizonte vira distância percorrida. Tanto um quanto outro nada mais são que utopias: aquilo que se deseja, aquilo que nos faz caminhar, aquilo que serve de combustível a nossas vidas; mas que, quando vira realidade, deixa de ser o que inicialmente se queria.



Um dia, com sede, e ao mesmo tempo perdidamente apaixonado, Rodrigo uniu todas as suas parcas forças e forçou a corrente. Com muito esforço, conseguiu se soltar. Assim que se soltou, o camelo correu em direção a sua amada. Correu rumo ao horizonte, e, quando chegou lá (ou achou ter chegado, pois tinha percorrido uma longa distância) percebeu o quanto nossos sonhos podem ser fúteis se de fato perseguidos. Tudo era só areia. Não existia camela alguma. Mas Rodrigo percebera o quanto aquela camela inexistente fora capaz de inspirá-lo, de fornecer energia para querer viver cada vez mais, de lhe dar a esperança para acordar em um novo dia... Ele vivia para amá-la, e, no entanto, ela nem existia.



Moral da história: Acredite nos sonhos. Na pior das hipóteses, eles pelo menos podem servir para te levar ao longe.

15 de dez. de 2005

A ovelha e o ornitorrinco

      Ofélia convidou seu grande amigo Enrico para um jantar no restaurante famoso de saladas à beira da lagoa. O relógio marcava 19h30. Como eles tinham marcado de se encontrar no local às 19h, Ofélia começava a ficar preocupada. Ela já tinha passado pelos estágios de rejeição (e se o amigo tivesse desistido de ir jantar com ela?), amnésia momentânea (e se tivessem marcado para jantar em outro horário? Em outro local? Em outro dia?) e raiva:

      — Ele me paga por essa demora! Grr.

      No momento, ela estava relativamente tranqüila, numa fase da espera em que era capaz de entender a demora do amigo, contanto que ele tivesse um bom motivo para chegar atrasado. Talvez a culpa fosse até do trânsito, pois a essa hora, pouco antes de escurecer, as pessoas estão todas indo para a casa, o que deixa as ruas bastante congestionadas.

      Foi então que ela exclamou, num tom que era audível apenas para si, sentada à uma mesa no canto do restaurante e sentindo-se a única ovelha solitária do lugar:

      — Ai, ai, e esse menino que não chega...

      Assim que terminou de pronunciar a frase, Ofélia olhou para a porta e viu Enrico chegando. Sentiu-se aliviada, e já nem lembrava mais por que antes estivera tão brava com ele.

      Enrico e Ofélia eram amigos de longa data. Conheceram-se na infância, quando ela perdeu-se da malhada e foi parar na margem do rio, sem saber para que lado ir. Enrico, profundo conhecedor da região, por ouvir as histórias fantásticas que os pescadores contavam, indicou-lhe o caminho de volta. A partir de então, sempre que Ofélia aparecia por ali, Enrico já sabia que ela estava perdida e os dois aproveitavam para conversar e brincar antes do entardecer. Às vezes o pastor se dava conta de que uma de suas ovelhas estava perdida, e a encontrava brincando na margem do rio com um animal esquisito. Ele não entendia como poderia haver um laço de amizade entre uma ovelha e um ornitorrinco. E, sem hesitar, pegava seu cajado e guiava Ofélia pelo caminho de volta.

      Mas, voltando à cena do restaurante. Ofélia aguardava na mesa do canto, e se surpreendeu ao ver Enrico entrar no restaurante.
      Ele estava tão elegante, tão bem arrumado, que ela não pôde deixar de comentar o fato assim que Enrico se sentou:

      — Uau, tudo isso para um jantarzinho com esta velha amiga? Da próxima vez me avisa que venho de vestido longo.

      Enrico enrubesceu. Ele notara já desde a porta que a amiga estava muito bonita. Ofélia encontrava-se tosada para o verão, mas seu pêlo estava começando a crescer, num ponto intermediário entre uma tosa e outra. Enrico teve de segurar muitos suspiros para poder finalmente falar:

      — Ah, que isso Ofélia. A situação merece uma roupa especial. Afinal, fazia tanto tempo que você não me convidava para nada. É até motivo para comemorar! Mas você está muito linda esta noite. Tão bela quanto uma flor.

      — Ai, Rico, admiro muito essa sua cordialidade. Mas será que mereço tanto?

      — Merece sim. Você merece tudo.

      — Assim você me deixa bamba. Mas você também é culpado por estarmos há tanto tempo sem nos vermos. Por que não entrou em contato?

      — Ah, ficamos tanto tempo sem nos falar que achei que você até já tivesse se esquecido de mim.

      — Que isso, Rico. Dos amigos de verdade a gente nunca esquece.

      E então o garçom dirigiu-se à mesa dos dois. Para evitar ter de gastar com ternos, o restaurante da beira da lagoa tinha o costume de contratar apenas pingüins para o cargo. Pois um belo pingüim aproximou-se da mesa dos dois e entregou-lhes os menus.

      — Façam sua escolha, sem pressa. Assim que tiverem feito sua opção, podem me chamar pelo botão no centro da mesa.
      Ofélia e Enrico interromperam, então, o assunto anterior. Os dois passaram a olhar atentamente cada opção de prato do local, com vistas a fazer a melhor das opções.

      — O que você me recomendaria, Ofélia? Nunca estive aqui antes. Você com certeza conhece melhor os pratos do que eu.

      — Não acredito que você nunca esteve aqui! A comida é ótima! Venho sempre que posso.

      — Gente fina é outra coisa.

      — Ah, que isso, Rico. Você é muito mais elegante que eu. Sou uma simples mortal, apaixonada por saladas.

      Para que a situação não ficasse esquisita antes mesmo do prato principal, Enrico optou por desviar-se do assunto. Aquela sucessão de elogios não estava normal. Enrico era apaixonado por Ofélia há vários anos. E quem pôde esperar tanto tempo para se declarar, podia muito bem aguardar mais um pouco. Então, o ornitorrinco agarrou-se com todas suas forças à cadeira, e antes que o silêncio tornasse-se constrangedor, perguntou:

      — Mas então, alguma sugestão de prato?

      — Ah, a salada de alface daqui é maravilhosa. Tenho certeza que você vai adorar.

      — Alface? Não sei não. Sou mais agrião, acelga, alfafa. E isso ainda sem sair da letra A!

      — Alface, não, então? Que tal a saladinha de rúcula com batatas?

      — Parece interessante. Vem algum acompanhamento?

      — Sim, todas as saladas vêm com talos de brócolis em separado.

      — Hm, adoro brócolis. Estou gostando deste lugar. Tanto pelos pratos quanto pela companhia.

      Ofélia sorriu e arrematou:

      — Então, duas saladas de rúcula com batatas?

      — Sim, isso mesmo. Vamos chamar o garçom.

      E então Enrico pressionou o botão, e antes que pudesse largá-lo, o pingüim-garçom já estava diante deles, pronto para anotar o pedido:

      — E o que vai ser, então?

      Ofélia fez o pedido. Enrico solicitou também dois copos d'água, mas pediu expressamente que eles viessem apenas quando chegasse a salada. Ele odiava o costume de certos restaurantes de servir a bebida antes da refeição, de modo que, quando esta chega, ou o refresco já não está mais gelado, ou o cliente já terminou de tomar e se vê forçado a pedir outra rodada de bebidas.

      — Mas, então, você ainda não me disse o motivo para ter me convidado para este jantar.

      — Ai, Rico. Estou apaixonada! Encontrei o amor da minha vida! Precisava contar isso para você.

      Numa tentativa pouco convincente de conter o espanto, Enrico prontamente perguntou:

      — E ele já sabe? É recíproca a coisa?

      — Não sei. Acho que sim.

      Ainda tentando conter a indignação, o ornitorrinco prosseguiu:

      — Como não sabe?

      — Sempre que me aproximo, ele late duas vezes, dá três pulinhos e senta. Se isso não é amor, não sei o que pode ser!

      Já incapaz de disfarçar, Enrico declara:

      — Eu tinha uma idéia totalmente errada do motivo deste jantar. Estou arrasado. Você não gosta de mim?

      — Sim, gosto de você. Rico, eu te amo.

      — Pois então, por que prefere uma bola de pêlos a mim?

      — Rico, sempre gostei de ti como a um irmão. Achei que você soubesse disso.

      — No início eu também te considerava apenas uma amiga. Mas com o tempo a coisa mudou. A gente não é mais criança!

      — Não fique nervosinho. Tenho certeza que há um monte de garotas que dariam tudo para sair com você.

      — Não me venha com essa conversa. Você sabe que ninguém me quer. Quem vai me querer com esse bico de pato, essas nadadeiras, e esse veneno no rabo?

      — Pois para mim esse seu bico é justamente o seu maior charme. Diga-me, que outro mamífero tem um bico tão sexy quanto o seu?

      — Será? Sempre me achei tão caidinho.

      — Enrico, não diga isso. Você é o máximo! Qualquer uma ficaria caidinha por você.

      — Mas aí é que está. Eu não quero qualquer uma. Eu quero você!

      — Quem ouve você falando assim até pensa que está falando sério. Você daria um ótimo político, pela maneira com que manipula a verdade. Mas diga, você não tem ninguém em vista?

      — Fora você, não.

      — Ai, Rico, você me mata com esse seu senso de humor!

      — Por que ninguém me leva a sério? Bom, e essa comida que não chega?

      — Eles não costumam demorar muito aqui neste restaurante.

      — Tomara. Não consigo ficar muito tempo longe da água.

      — Nem esquenta. Em seguida a comida chega.

      — Está bem. Enquanto isso, conte-me mais sobre o rapaz que roubou seu coração. Qual é o nome dele? Eu o conheço?

      — Eu chamo ele de Fofinho. Sabe como é, ainda não tivemos uma oportunidade de conversar, assim, a sós. Ele é todo branco, com o pêlo encaracolado, e tem olhos azuis. Talvez você possa conhecê-lo ainda hoje, convidei-o para vir aqui.

      — E o que ele disse?

      — Latiu duas vezes, deu três pulinhos e sentou. Mas ainda tenho esperanças de que venha. Sabe como é, homens. Vai entender o que passa na cabeça deles!

      — Mas e você já comentou com ele suas reais intenções? Às vezes também é difícil para nós homens percebermos o que se passa na cabeça de uma mulher.

      — Interessante você mencionar isso. Talvez possa me ajudar a desvendar a mente do Fofinho. Semana passada, cansada de esperar alguma atitude dele, resolvi falar tudo o que sentia, abrir meu coração. Mas estranhei sua reação.

      — O que ele disse?
      — Nada. Latiu duas vezes, deu três pulinhos, e sentou.

      — Esse cara é muito estranho. Mas vai ver essa é sua maneira de demonstrar que também sente algo por você. Se não estivesse interessado, garanto que não daria os três pulinhos.

      — É, é verdade. Olha, o garçom está vindo na nossa direção. Acho que nosso prato está chegando. Hmm. Estou com muita fome. Faz tempo que não como folhas tão chiques.

      — Ah, finalmente. Já estava desacreditando no serviço deste restaurante. Sempre me falaram tão bem. Não achei que fossem demorar tanto para servir.

      — Não esquenta. É só você dar uma garfada nessa saladinha que num instante esquece o tanto que teve de esperar por ela. Eu te asseguro isso.

      — Hm, tomara.



      E os dois então saborearam um delicioso prato de salada de rúcula com batatas, acompanhado de uma porção generosa de talos de brócolis. Enquanto comiam, Enrico não conseguia parar de pensar em Ofélia. Ele a amava, desde muito tempo. Mas fora incapaz de contar-lhe antes, e perdera a oportunidade de tê-la em seus braços. Agora era tarde. Mas Enrico não desanimou. Ele estava decidido a lutar. Com certeza em pouco tempo ela esqueceria o maldito poodle de pelúcia do filho do pastor de ovelhas e teria olhos para ele. Enrico conhecia bem Ofélia. Ele sabia que ela era dada a romances passageiros, paixões efêmeras, e amores impossíveis. Era questão de tempo para ela esquecer o tal do Fofinho. E aí sim, Enrico poderia abusar de suas investidas para com Ofélia. Ele até já planejava as vezes em que a convidaria para jantar ali, no restaurante da beira da lagoa. Aquele lugar parecia-lhe bacana.

      Enquanto isso, Ofélia só pensava no seu amor. O Poodle era tão lindo, era tão fofo, era tão querido, tão meigo. Por que ele não apareceu ali? Por que ele não olhava para ela? Por que, sempre que se aproximasse e dissesse algo, Fofinho simplesmente latia duas vezes, pulava três vezes, e sentava? O que aquilo queria dizer?



      Apesar do apetite voraz (era capaz de comer o equivalente a seu peso de uma só vez se fosse preciso), antes de cada refeição Enrico realizava um ritual meio maluco: pegava o alimento que estava prestes a ingerir, batia uma de suas extremidades três vezes no chão (para certificar-se de que não era oco), virava da esquerda para direita, de cima para baixo, e de uma face a outra, e só depois de todos esses atos concluídos é que Rico saboreava qualquer alimento. E, para ele, tudo isso era coisa séria. Ai de quem debochasse. Sempre que por excesso de fome ou por preguiça ele deixasse de fazê-lo, punia-se de forma violenta, dando bicadas em seu próprio rabo. Ofélia já estava acostumada com isso tudo, sabia que o amigo sofria de transtorno obsessivo-compulsivo, e tinha ciência de que o tratamento havia sido falho. Mas os demais animaizinhos que jantavam no restaurante acharam tudo muito estranho. Ainda bem que Enrico era meio abobalhado para essas coisas, não percebia quando os outros o olhavam, nem sabia o que pensavam dele. Naquele momento, ele só tinha olhos, ouvidos e pensamentos para Ofélia. E, embora tentasse disfarçar, todos percebiam o quanto ele admirava ela mais que a uma amiga. A única incapaz de perceber isso era justamente Ofélia, pois seus pensamentos estavam no Poodle. Ia ser difícil fazer esse triângulo aberto transformar-se numa linha reta. Um romance entre os dois era praticamente impossível. Ofélia via e sempre veria Enrico como um amigo, nada mais que um amigo. Talvez um irmão: Enrico era exatamente isso para Ofélia; era como o irmão, que ela nunca teve.



* to be continued... :P

14 de dez. de 2005

O pato Renato

      Renato era um pato meio esquisito. Ele vivia em um lago no meio do parquinho infantil, cercado de falsa natureza por todos os lados (e de grandes prédios cinzas de concreto pelos ares). Sua plumagem era branca, mas estava meio amarelada pela ação do tempo, e por conta das fumaças de grande cidade, com as quais era obrigado a conviver todo dia. Um de seus maiores traumas era nunca ter aprendido a fazer Quack-quack (limitava-se a um disforme "queek queek", meio que uma mistura de uma porta de geladeira velha rangendo e um pato em apuros), e seus olhos grandes e curiosos pareciam que a qualquer momento saltar-lhe-iam da órbita. Ele também tinha um estranho penacho branco na cabeça, que balançava toda vez que se mexia, o que lhe conferia um certo ar solene, apesar da informalidade do lago.



      Como o lago era público, e freqüentado por toda sorte de animais (de insossos peixinhos dourados abandonados por seus donos insensíveis a estranhos humanos que abandonam seus peixes — o parquinho estava sempre cheio de crianças moradoras nos prédios dos arredores, e sabe-se lá onde esses monstrinhos punham suas mãos!), Renato vivia com medo de contrair alguma doença. Por isso, ele basicamente passava o dia inteiro na margem do lago, e evitava avançar e arriscar pôr em risco a sua saúde já bastante debilitada. Às vezes ele se entediava por não fazer nada o dia todo, e dava pequenas voltas, mas nunca ia muito longe, pois em seguida encontrava alguma partícula não-identificada boiando na água e fugia em disparada.



      Numa tarde particularmente ensolarada (embora fosse difícil ver o sol, com tantas folhas falsas e prédios bem altos obstruindo a vista), Renato passeava pelo lago, meio sem rumo, e avistou, com sua vista bastante acurada, uma linda pata amarela na outra extremidade da água. Aproximando-se, meio receoso e bastante atrapalhado, Renato percebeu que ela era consideravelmente menor que ele, mas isso não parecia ser problema, pois a pata era perfeita, e linda. Então Renato passou a fazer uma série de besteiras que os apaixonados fazem quando querem chamar a atenção, para ver se a pata o notava. Entretanto, ela não reagia. Pelo contrário, sequer se mexeu quando Renato começou a fazer as mais doidas piruetas na superfície da água. Também pudera — a pata avistada por Renato era uma pata de borracha!



      Quando retornava pelo mesmo caminho pelo qual veio — Renato vivia uma vida toda metódica, cheia de peculiaridades que precisavam ser seguidas, para evitar que contraísse alguma doença (num laguinho público? Eram muitas as ameaças à saúde que poderiam ser encontradas!) —, Renato esbarrou numa carteira de cigarro, abandonada por algum humano inescrupuloso bem no meio do lago, com a fotinho virada para cima. Ao vê-la, Renato acreditou que também tinha câncer de pulmão, e entrou em pânico. Só muito tempo depois, e com muito esforço, foi convencido pelos demais patos de que ele não tinha sequer um pulmão humano, quanto mais um câncer nele. Seus amigos diziam que, desse jeito, com tanta frescura, dificilmente ele ia encontrar uma namorada. Quem iria querer ficar ao lado de um pato todo metódico e com hipocondria? Mas ele ignorava as advertências dos demais. Na verdade, ele estava tranqüilo: já não tinha ouvidos para os outros desde que conhecera a pata amarela do outro lado do lago. Só que ele não sabia que o romance era meio impraticável, já que eles pertenciam a diferentes classes de patos — ela, era da classe dos inanimados; ele, da ordem dos anseriformes.



      Em pouco tempo, a vida do pato mudou. Enquanto não obtivesse resposta de seu amor (tanto negativa como positiva) Renato vivia a cruzar o lago, dia e noite. E, indo de uma extremidade à outra, expunha-se a diversos perigos de contágio de doença. Ora se preocupava por ser fumante passivo ao ouvir algum comentário de humano na beira do lago e sentir a aproximação da fumaça, ora seu medo recaía sobre alguma folha seca que despencava de algum galho sobre a água (pois a árvore da qual ela se desprendera podia muito bem estar contaminada!).



      À medida que a paixão de Renato pela pata de borracha aumentava, também crescia seu medo de pegar alguma doença. Não demorou muito para que ficasse meio paranóico. Seu medo de contrair doenças era tanto, que ele passou a se mover cada vez menos — e se ele pegasse a gripe do frango? E se ele morresse afogado? O ar poderia estar contaminado. A própria água era uma ameaça, mas Renato não podia parar de respirar ou deixar de tocar o solo. Queria aprender a voar, para não entrar em contato com a terra ou com a água. Mas pesquisou no Google e descobriu que a quantidade de impurezas no ar era absurda. Aí ele não sabia o que fazer e simplesmente ficou parado. Parou de respirar. Não mais se mexeu. E hoje em dia ele é um pato de borracha (parado, imóvel, sem respirar). O ruim é que ele nunca pôde conquistar o amor da pata de borracha, mesmo agora que também é feito do mesmo material. Mas eles vivem felizes, um ao lado do outro, como Renato queria, sem no entanto terem a capacidade, inerente aos seres vivos, de poderem se virar e se olhar — e de se amar (existe coisa mais viva que o amor?).

11 de dez. de 2005

Firula, uma grande hipopótama

[atenção: este texto ainda precisa de ajustes :P]



      Firula era uma hipopótama como as demais: meio cinza, meio rósea, e bastante pesada. Ela tinha um sorriso largo e vivia semi-submersa nas águas rasas de um lago da floresta. Para qualquer lado que olhasse, só encontrava hipopótamos. Sua vida também era típica de um ser de sua espécie: deslocava-se em bando, alimentava-se de plantas, e no resto do dia ficava de bobeira no lago, com o corpo metade mergulhado n'água, metade saltando pra fora (sua vida, basicamente, resumia-se a se fingir de pedra). Como uma rotina dessas não só parecia como era de fato bastante tediosa, Firula precisava encontrar maneiras de superar o tédio do dia-a-dia. E foi numa dessas tentativas de encontrar o que fazer que a hipopótama acabou se tornando obcecada pela boa forma.

      Assim, enquanto os outros hipopótamos vivam a comer e a descansar, Firula não perdia uma oportunidade de fazer ginástica. Algumas vezes, ela corria de um lado a outro do lago, com as patas submersas. Em outras situações, aproveitava o tempo livre para nadar. Isso quando ela não decidia praticar hidroginástica no meio do lago — e provocava situações hilárias, pois seus saltos aquáticos, mal-calculados e desengonçados, espirravam água para todos os lados, vindo a atrapalhar a soneca dos demais.

      No início, Firula até comia tal qual os demais hipopótamos; entretanto, assim que terminava de ingerir algum alimento, ela metia a larga pata achatada dentro da boca gigante e forçava que seu organismo expelisse tudo de volta.

      O grande problema é que o padrão de beleza dos hipopótamos constitui-se justamente em ser gordinho. Hipopótamos são grandes, por natureza. Firula queria usar o padrão de peso de outros animais; queria ter um corpo sarado como aqueles dos animaizinhos mostrados pela mídia.

      E assim instalou-se em Firula um verdadeiro "complexo de Barbie", que se manifestava principalmente de duas formas: ora comia desesperadamente, o que gerava nela um grande sentimento de culpa, seguido de uma verdadeira indução de vômito (bulimia); ora comia direitinho, fazia exercícios obstinadamente, e, ao se olhar no espelho, por mais que tivesse perdido peso, se sentia enormemente gorda (e qual hipopótamo não é?) — em um claro sinal de anorexia. E assim, oscilando entre os dois pontos, Firula tornava-se cada vez mais obcecada pela própria imagem. Ou melhor, tornara-se a eterna perseguidora de uma imagem ideal que só existia em sua mente, e, quanto mais dela se aproximasse, mais longe de atingi-la estaria. Chegar ao peso que consideraria ideal era, de fato, técnica e paradoxalmente impossível: quanto mais Firula emagrecia, mais lamentava-se e cria estar acima do peso.

      Durante muito tempo, tudo o que Firula fazia, pensava ou comia era imediatamente associado com a idéia de perder peso. Ela se sentia gorda o tempo todo, e seu objetivo era emagrecer, não importasse o quanto sofresse com isso. Em pouco tempo, foi simplesmente parando de comer, ficando obcecada com dietas e alimentação saudável, pois simplesmente se achava gorda demais quando se via no espelho. Depois de tudo isso, é claro, finalmente chegou o dia em que Firula enfim apaixonou-se pela própria imagem refletida em um espelho, ao ponto de tal excesso de amor próprio transformar-se em narcisismo. Para manter o peso atingido, que considerava o ideal (embora muito abaixo do normal), Firula simplesmente parou de comer. Mas cada vez que deixava de ingerir novos alimentos, seu organismo reclamava a falta de nutrientes essenciais. Ela ignorava os sinais, até que algum tempo depois foi impossível resistir e Firula desmaiou. Não fosse a prontidão de Marcos, o macaco (que passava por ali por acaso, é claro), não teria tido condições de chegar até o hospital e morreria asfixiada (ou afogada — o que acontecesse primeiro). Ele achou estranho ver uma hipopótama de barriga para cima no lago, e resolveu verificar o que tinha ocorrido.



      Firula tentou questionar os padrões de beleza da sociedade moderna impostos pela mídia. Mas acabou sofrendo de uma profunda anorexia, que levou meses e meses para ser tratada, e por muito tempo ainda manifestou seqüelas. Mas ela finalmente aprendeu, às custas de muito sofrimento, que todo excesso, nos cuidados com o corpo, ou em qualquer aspecto da vida, quando transcende os limites do racional e foge aos padrões normais de comportamento, acaba por ser prejudicial.

10 de dez. de 2005

Léo, o leão

      Léo era um leão valente, esperto e sagaz. Com seu porte atlético e garras afiadas, conquistava o coração de diversas mocinhas ao longo da floresta, que se derretiam ao vê-lo passar. Ao menor sinal de perigo, bradava, com sua voz firme e segura:

      — Eu sou o Leão, o Rei da Floresta... Roarrrrr!

      (Note-se que as palavras já saíam de sua boca com as inicias maiúsculas!).

      Era só pintar um inimigo que Léo, prontamente, estufava o peito, abanava as jubas, e partia para o ataque. Ou ao menos era isso o que ele parecia fazer...



      Johnny era um gambazinho esmirradinho, baixinho, que usava óculos e tinha uma cômica voz rouca. Seu corpo era percorrido por duas listras brancas de pêlo, que lhe conferiam um ar de uniforme da Adidas. Mas apesar da aparente fragilidade, Johnny era um animalzinho que cumpria uma missão fundamental para a manutenção da vida na floresta: era ele quem zelava pela imagem de malvado do leão. Ele era o guardião do mito de que o leão tem de ser feroz. Léo, na verdade, era tremendamente medroso, e precisava que seu fiel escudeiro o protegesse nas situações de perigo. Assim, o que acontecia de verdade era que, na menor dificuldade, Léo fugia, mas Johnny corria atrás dele e o obrigava a agir, mesmo que para isso fosse obrigado a administrar-lhe pílulas contra a insegurança.

      Léo tinha síndrome do pânico, e o maior medo de quem a tem é justamente o medo de sentir medo. Isso fazia com que às vezes ele não tivesse sequer coragem de sair de sua toca! Era preciso, então, que tomasse remédios para vencer a covardia. E assim surgia a imagem de um leão falso, movido à base de psicóticos dos mais variados tipos.

      Nessas condições, o leão e seu fiel escudeiro percorriam a floresta para demarcar território. Léo, tal qual a mulher de César, só precisava parecer malvado, e a ordem da floresta estaria mantida. O problema ficava incontornável mesmo quando Léo se via diante de um ratinho, seu segundo maior medo:

      — Aaaah! Um ratooo!! Socorro!!!

      E não tinha milagre, remédio, ou conselho de Johnny que o fizesse voltar e enfrentar o "perigo". Isso era arriscado, pois algum dia algum animalzinho poderia ver a cena, e a imagem de feracidade do leão estaria ameaçada. Era preciso tomar providências, mas Johnny não sabia por onde começar...



      Um dia, Léo conheceu Lia, a leoa viúva. E, diante daquela fêmea de fibra, Léo sentiu pela primeira vez a necessidade provar que era valente: para Lia, não bastava que parecesse feroz, era preciso ter coragem de verdade. Conquistar o coração dessa leoa forte, que defendia com garras e dentes sua cria desde a morte do marido, o antigo rei, numa emboscada na floresta vizinha, não seria tarefa fácil!

      Na vez seguinte em que encontrou com um ratinho, Léo estava sozinho, mas mesmo assim tratou de encarar seu medo — por Lia. Ao mesmo tempo que seu coração dizia: "Fuja! É um rato! Um asqueroso rato!!", sua consciência exigia que tomasse providências. Era como uma daquelas clássicas cenas de desenho animado, em que um anjinho à direita e um diabinho à esquerda confabulam cada um a seu turno na tentativa de convencê-lo de que o melhor caminho é o bem ou o mal. E então Léo deixou o anjinho vencer, e reuniu todas as forças possíveis para aquela situação:

      — Miaaaauuuu.

      Com o mugido fracassado, o ratinho caiu na gargalhada. Ele rolava de rir no chão. Léo ficou furioso e quis tirar satisfações. Quem era aquele que ousava insultar o leão? O ratinho se apresentou, e foi bastante simpático. Conversa vai, conversa vem, os dois descobriram que tinham nascido nas mesmas redondezas, e que tinham bastante coisas em comum. Tornaram-se grandes amigos. Aí o leão falou de suas inquietações, o ratinho respondeu dizendo que ele não tinha que se preocupar, pois os ratos eram animais inofensivos, e blá blá blá.

      Pois então, quem diria, o leão acabou encarando seus maiores medos (o medo de que tinha medo, e o medo de ratos), e descobriu que era possível continuar sendo respeitado mesmo tratando os demais animais como amigos. Ele percebeu que podia ser ele mesmo, sem a necessidade de ser arrogante e petulante o tempo todo; sem precisar mentir. Virou amigo de todos, e todos o respeitavam porque ele era bom. Não tinha mais vergonha de confessar seus medos, e passou a viver num reino onde transparência era a palavra-chave. Tudo parecia perfeito, afinal.

      Entretanto, é claro, a leoa viúva não quis saber dele: um leão que, ao invés de lutar, negociava a paz? Ah, fala sério!

O flamingo diferente

      Nas águas pantanosas de um lago qualquer de uma ilha perdida no meio do Oceano Pacífico vivia Fred, um rapaz meio retraído, bastante tímido, e com tendências à introversão. Na verdade, Fred era um flamingo autista, que vivia fechado em si mesmo, em um mundo próprio, onde as coisas adquiriam significações peculiares. O motivo de tamanha retração devia-se ao fato de que Fred era um pouco diferente dos demais: enquanto seus companheiros era todos brancos ou rosa (conforme a intensidade e a qualidade de suas plumagens), Fred era completamente verde.

      Como se não bastasse o fato já suficientemente embaraçoso de ser gago, Fred ainda precisava conviver com as piadinhas de mau gosto dos outros. Como uma forma de defesa, ele se fechava cada vez mais em si mesmo. Mas mesmo assim a opinião alheia ainda lhe atingia de certa forma (impossível mostrar-se indiferente à existência dos demais!). Ele vivia num constante sentimento de inferioridade, provocado pelas insinuações traiçoeiras de que era seguidamente alvo. Com o tempo, passou simplesmente a negar todos em bloco, e a se afastar das pessoas.

      Até que um dia o flamingo se apaixonou por um gerador de energia eólica solitário, estrategicamente posicionado ao lado do lago onde vivia. De início, Fred mostrou-se tímido, e tinha vergonha até de olhar para a turbina. Mas dentro de si borbulhava uma fervente paixão. Fred achava bastante sexy o murmurinho abafado emitido pelas pás de vento. Mas era só ele se pôr a pensar na turbina que algum peixe engraçadinho saltava no lago e exclamava:

      — Ei, Fred, não está maduro ainda!? — E todo o lago caía na gargalhada.

      Num instante, toda a confiança em si mesmo que vinha reunindo com seus pensamentos amorosos se esvaía... E ele voltava a ter pensamentos negativistas. Nessas horas, ele desejava conhecer Alice, para poder escapar para um mundo onde o absurdo fosse o normal, a exceção a regra, o particular o geral. Mas como nem só de induções era feita a vida, era preciso voltar e encarar o mundo real, e uma grande válvula de escape encontrada por Fred era pensar nas lindas pás de seu grande amor.

      Em um dia particularmente tranqüilo, Fred tomou coragem de convidar o gerador para sair. Não obteve resposta (só "uma dura e fria indiferença", como descreveu em seu diário imaginário na ocasião) e se sentiu profundamente amargurado. Inicialmente, colocou a culpa da rejeição na diferença de altura entre os dois. E sentiu-se baixinho, ridiculamente baixinho. Depois percebeu que talvez a turbina, que parecia tão diferente, fosse de fato igual aos demais, e não merecesse sua (com)paixão. Ele sofria de amor. Durante dias, Fred olhava para a turbina e esforçava-se por sentir ódio (mas e o que é o ódio, senão uma forma invertida e absurda de amor?).

      Fred não tinha com quem conversar. Os outros flamingos o excluíam porque ele era diferente — "o esquisitão do lago", diziam. E então Fred travava longos discursos com sua própria consciência, como uma forma de suprir todos os diálogos acalorados que nunca teve. Ele também criava amigos imaginários, conforme a conveniência. Quase todos eram flamingos como ele, mas de cores diferentes, e que o achavam "descolado" por ser verde.

      Em seu mundo, o flamingo verde seguia sendo diferente dos demais, mas era um diferente bom, difícil de explicar. Ele se sentia único, especial, diferente de no mundo real, no qual ele era constantemente zoado pela aparência por animaizinhos superficiais, incapazes de ir além do que está diante de suas vistas; incapazes de perceber que ali dentro, apesar da carcaça verde desengonçada, havia um cara sensível, um cara legal... Bastaria uma oportunidade!

      Às vezes Fred desejava ser um avestruz, para poder enterrar a cabeça na água e ficar com ela por lá, indefinidamente, sem sentir a necessidade de respirar; em outras oportunidades, desejava que tivesse a capa de invisibilidade de Harry Potter, para simplesmente poder viver sem ser incomodado (antes ser transparente do que verde — mas o importante para ele era o ser). Para esse flamingo simples, bastava que estivesse vivo para ser feliz. Prova disso é que Fred sonhava com um mundo em que todos os flamingos fossem coloridos, de todas as cores do círculo de Newton (se ele não gostasse de si mesmo, sonharia simplesmente em ser rosa). Mas ele preferia que o mundo melhorasse, que as pessoas mudassem, e que o preconceito acabasse. Ele era esperto o suficiente para saber que o problema não estava nele, e sim nos demais.

      Um dia, cansado de sua vida patética e infeliz, Fred tomou coragem e abordou sua paixão impossível outra vez. Não obteve resposta, mas estava disposto a arriscar. Reuniu forças sabe-se lá de onde, e partiu para cima da turbina: queria possuí-la à força; necessitava de amor. Agarrou-se a seu amor em movimento. Por alguns instantes, ele e as pás se confundiram, numa psicodélica mistura de verde desbotado com branco metálico. Vermelho, verde e branco. Vermelho, muito vermelho. Sangue. Respingos de sangue por todo o lago: Fred morreu enquanto girava nas pás eólicas — frenético de amor, até o último suspiro.

      Ao menos uma ilusão ele fora capaz de manter a vida toda... Morrera pela crença na possibilidade de um mundo melhor. E ninguém imaginaria que, afora todas as questões já consagradas do impacto ambiental da energia eólica, ela ainda fosse provocar o suicídio passional de um flamingo autista...



* postado originalmente em http://gabrielaz.blogspot.com

Tadeu, o tamanduá

      Tadeu era um rapazote desengonçado. Ele tinha um corpo alongado, porém seus braços e pernas eram muito curtos, e contrastavam com o esquisito lombo gordo e esticado. Seus olhos eram cor-de-mel, e brilhavam sem cessar. Sua pele era de um tom incerto, entre o terra e o acizentado. Já não tinha mais dentes, e sua boca era grande e afunilada. Tadeu era um tamanduá, embora quase sempre lhe faltasse consciência disso.

      Às vezes Tadeu acordava, via o sol brilhando lá no alto, e pensava que ele mesmo fosse sol. E então saía a pular pela floresta, com seus braços e tromba estendidos, inutilmente tentando copiar o esplendor inimitável dos raios solares. Se passasse por um lago, via seu reflexo na água, e logo deixava de ser sol. Mas antes que pudesse assumir sua identidade tamanduá, Tadeu via uma pedra, achava que a pedra era ele e que ele era a pedra, e ficava imóvel o resto do dia na beira do lago, até que alguma boa alma passasse por ali e desfizesse o equívoco. E assim eram seus dias, com a variante de que às vezes acordava sentindo-se nuvem (para o caso de dias nublados), e não raras vezes sentia-se chuva (embora tivesse um instinto de sobrevivência aguçado e levasse pouco tempo para perceber que não deveria se jogar precipício abaixo).



      Lili, por sua vez, era uma jovem como todas as outras: tinha lábios carnudos e perigosos, um corpo escultural, com cinturinha fininha, bumbum arrebitado e nariz empinado. Para preservar um corpo desses, Lili vivia de dieta, e por isso só comia alimentos naturais ("tudo em nome de uma vida saudável", dizia). Ela adorava passar batom vermelho em seus lábios bifurcados, e até pareceria uma adolescente normal, exceto pelo fato de que era uma formiga — e uma formiga adolescente bastante sonhadora.

      Lili era apaixonada por Tadeu. Não bastasse a impossibilidade metafísica de um romance entre os dois (a donzela e seu predador natural), havia também uma enorme diferença de tamanhos (sem falar na inquestionável incompatibilidade de gênios). Mas como toda garota apaixonada, ela não percebia os defeitos, e só tinha olhos para as qualidades de seu amor. Tadeu gostava da natureza, como ela. Ele era meio desengonçado, como ela. Ele gostava de cavar buracos, como ela. O que poderia dar errado? Lili achava meigo o jeitinho meio perdidão de Tadeu, e adorava quando o encontrava parado no bosque, fingindo ser o pasto ou uma árvore. Assim ela podia observá-lo por inteiro, e admirar sua beleza sem ser incomodada. Ela odiava o fato de que seus semelhantes não passassem de uma mera aglomeração de três bolinhas de massa corpórea, enquanto que Tadeu era aquele ser maravilhoso, de corpo íntegro e contínuo. Ela contava para as amigas de seus delírios juvenis, e todas suspiravam em uníssono. Como são patéticas as jovens apaixonadas!



      Pois, bem, tudo começou quando Lili, a formiga operária, e Tadeu, o tamanduá sui generis, viram-se pela primeira vez (sim, fora amor à primeira vista!). Um dia, ao ver uma formiga (Lili, Lili!), Tadeu achou que fosse uma delas, e tentou entrar no formigueiro. O resultado foi catastrófico, pois aqueles que não foram esmagados pelas patas do desastrado tamanduá, morreram pisoteados na hora em que todas as formigas tentaram fugir ao mesmo tempo, em pânico, com medo de serem devoradas (nem todos sabiam que Tadeu era tantã). E ainda teve uma meia dúzia que se suicidou: antes a morte digna, que morrer nas garras (na tromba) de um horripilante predador.



      Mas Lili achou tudo isso muito "fofo", e, desde então, suspirava pelos cantos. Toda vez que via Tadeu, ora se fingido de ponte, ora agindo como um leão, a menina percebia que era com aquele tonto mesmo que queria passar todos os dias de sua vida.



      Lili começou, então, a seguir os passos de Tadeu, na esperança de que um dia ele a notasse (novamente). Ela nem se importava com a possibilidade de Tadeu confundir-se com ela: o que importava era que percebesse a sua existência.



      Em uma de suas andanças, Lili encontrou Waltz, o feiticeiro da floresta. Ele era um esquilo senil, mas muito esperto, que detinha conhecimentos de feitiçaria suficientes para transformar qualquer um no que quer que fosse. Muitos consideravam sua existência um verdadeiro mito, pois ninguém nunca o vira — ou então quem o encontrasse tratava muito bem de esconder o fato. Lili aproveitou a oportunidade para pedir alguns conselhos. Pediu ao sábio Waltz, o qual andava com o auxílio de uma bengala e usava pesados óculos de grau, que tornasse possível seu amor com o tamanduá. O esquilo pensou um pouco, coçou a cabeça, deu três ciscadas no chão, abriu uma noz que tinha no bolso e a saboreou tranqüilamente. Lili percebeu que ele tinha memória curta, e precisou repetir umas cem vezes o que queria, até que Waltz tomasse alguma providência. Foi preciso ter paciência com aquele velhote. Mas, por fim, Lili conseguiu o que queria: Waltz providenciou-lhe uma pílula de encolhimento, que dizia ser capaz de reduzir qualquer indivíduo ao mínimo de compactação possível, sem que perdesse sua essência. A formiga acreditou nas palavras do sábio, não tanto por ele ser quem fosse, mas pelo fato de que tudo aquilo estava escrito em um pesado livro empoeirado — o que reduzia os riscos de ser um mero devaneio de um velho gagá. Lili não ia arriscar ter de carregar uma rodela branca vinte vezes mais pesada que ela, para no fim descobrir que não surtiria efeito algum. Sua jovialidade impaciente exigia a certeza de que tudo daria certo.



      Com muita dificuldade, Lili conseguiu chegar em casa antes do anoitecer. Como o tamanduá morava não muito longe dali, contou com a ajuda de algumas de suas fiéis amigas para transportar o comprimido até a toca de Tadeu, que, felizmente, já se encontrava dormindo. Elas depositaram cuidadosamente a mercadoria próxima de sua tromba, e se retiraram em silêncio (embora a vontade de Lili fosse a de permanecer ali, indefinidamente, a admirar a beleza do tamanduá). No dia seguinte, Tadeu acordou e a primeira coisa que viu foi o comprimido. Acreditou ser o comprimido, e enrolou-se o tanto quanto pôde. Marcos, o macaco amigável, que por acaso passava por ali, resolveu espiar se Tadeu já tinha acordado e presenciou a bizarra cena de um tamanduá contorcionista. Marcos então chamou a atenção do amigo e, ao trazê-lo de volta a si ("você é um tamanduá... vamos! reaja!", apresentando-lhe um espelho que trazia consigo) percebeu a existência do pequenino comprimido branco. Como não soubesse do que se tratava, sugeriu que o amigo o tomasse. E então Tadeu tomou o comprimido, mas não sem antes Marcos ter sofrido para convencê-lo de que Tadeu não era ele, que Marcos era outra pessoa, e que tamanduás não eram macacos, nem macacos, tamanduás. Assim que Marcos foi embora, Tadeu começou a sentir umas pontadas estranhas, algumas dores abdominais, e, em seguida, estava tão pequeno quanto um alfinete de patinhas e tromba. Estava meio transtornado, com a vista embaçada (achou por um momento que ele era de fato um borrão, tentou agir como um, mas não recordava como um borrão devia ser e voltou a ser tamanduá... mas daí já era tarde, pois naquele momento ele podia ser tudo, menos um tamanduá!). De volta a sua natureza tamanduá, decidiu-se por perseguir formigas. Andou, andou, e acabou chegando ao formigueiro.



      Enfim, Tadeu, o tamanduá, ficou do tamanho de uma formiga — e desde então ele é a formiga mais estranha do formigueiro. Lili achou sem graça tê-lo do seu tamanho, e se apaixonou pela força e garra de Léo, o leão (uma jovem necessita de amores impossíveis!). Tadeu, que desde a ingestão do comprimido mágico só enxerga formigas, crê fielmente ser uma delas. E ninguém consegue tirar essa certeza de sua cabeça... (ou da delas...).



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[inspirado no personagem Gurdulu de O cavaleiro inexistente :P]



* postado originalmente em http://gabrielaz.blogspot.com

Histórias passadas

Outras informações

  • - Nas cinco primeiras histórias, a ênfase foi na criação e descrição de personagens. A ênfase atual é nos diálogos, e/ou na elaboração de um final para os textos.
  • - As sete primeiras histórias postadas fazem parte de um grupo temático arbitrariamente criado e intitulado "Amores impossíveis".