Animaizinhos Toscos

tentativa de praticar a escrita a partir da criação de personagens antropomorfizados (ou não) que precisam encarar o tédio do dia-a-dia

8 de mar de 2009

O hipopotamozinho e o caderno 3G

O hipopotamozinho, filho de Firula, a hipopótama, adorava ir para a escola. Para ele, ir para a aula era o momento mais legal do dia. Tanto que ele odiava os finais de semana.

As aulas eram ministradas no pântano ao lado da lagoa principal da floresta. Johnny – como era chamada o hipopotamozinho – morava na lagoa, então ir para a aula nada mais significava que ir até uma margem predeterminada do lago e ficar ali por algumas horas, junto a outros animaizinhos, recebendo ensinamentos da sábia coruja. Na floresta não tinha essas frescuras de séries e classes. Todos os filhotes estudavam juntos. Às vezes a coruja convidava outros animaizinhos para dar aulas especiais, mas na maior parte do tempo predominava a visão de mundo da coruja, acumulada em anos e anos de vôos e observações. Era muito esperta essa coruja.

Embora já fizesse mais de ano que Johnny começou a freqüentar a escola, desde o começo ele sempre usava o mesmo caderno. Johnny se apegou tanto ao caderno – cuja capa trazia a imagem de um golfinho – que ele tomava cuidado para escrever com letra miudinha, e aproveitava todos os espaços de cada folha. Com isso, esperava poder fazer seu caderno durar durante todo o período escolar. Além do mais, conseguir um caderno no meio da floresta era tarefa complicada. Esse caderninho em específico fora achado no lago, pelo próprio Johnny, logo após a mochila de um humaninho ter aparecido boiando ali pelo lago. Johnny ignora o que tenha ocorrido com o menino. Mas não resistiu e tomou o caderno para si. Era lindo, e o golfinho da capa não parava de sorrir.

Um dia, durante uma aula particularmente interessante, sobre territórios distantes sobre os quais Johnny nunca tinha ouvido falar – mas a coruja contava ter estado por lá – o hipopotamozinho procurava tomar nota de tudo o que era dito. Com letras pequenas, e tudo esmagadinho, claro. A aula era sobre a Patagônia.

Porém, de repente, ao virar a página, Johnny se deparou com algo que nunca tinha visto. Ao invés das pautas, como havia nas demais páginas, havia uma página lisa, totalmente em branco. Ao tentar escrever, o que ele escrevia aparecia na página, mas de um jeito bizarro. Aí ele notou um quadradinho lá em cima, como se fosse uma caixa de texto. Instintivamente, escreveu “Patagônia” ali em cima. Em instantes – e para seu espanto – várias fotos e imagens começaram a aparecer abaixo do quadradinho, enchendo a página com coisas que por enquanto ele só podia imaginar a partir do relato da coruja. Na base da página, ele viu um mapa. Ao colocar o lápis sobre o mapa, ele se expandiu e tomou conta da tela. O mapa mostrava a Patagônia. Com um pouco de esforço, ele pôde estimar a distância que estava da Patagônia a partir do mapa. Não demorou muito para que Johnny esquecesse da aula e passasse a prestar atenção apenas em seu caderno. Ele digitou o nome de sua floresta na caixa de textos, e viu fotos de sua floresta. Ao abrir uma foto, entretanto, viu que esta era acompanhada por textos. Ao ler um dos textos ficou profundamente triste ao saber que o local era conhecido pela “caça a perdizes” – ele possuía vários colegas perdizezinhos, e sentiu pena por eles. Triste, Johnny voltou para a Patagônia, achou uma foto bonita e passou o lápis em cima dela. Diferentemente do que sua professora coruja estava contando, na Patagônia também caçavam e matavam animaizinhos. Ele viu a foto de um animal ferido, e lágrimas escorreram de seus olhos. Johnny estava descobrindo a realidade do mundo, mesmo sem sair de seu lago. Seu caderno – ou aquela página especial de seu velho caderno desgastado e molhado – permitia-lhe ter acesso a conhecimentos muito além do que poderia ficar sabendo a partir do relato dos que estavam a sua volta. Seu caderno, tal qual a tecnologia 3G, o permitiu conectar a partir de um lago, no meio de uma floresta, com o restante do mundo.

Histórias passadas

Outras informações

  • - Nas cinco primeiras histórias, a ênfase foi na criação e descrição de personagens. A ênfase atual é nos diálogos, e/ou na elaboração de um final para os textos.
  • - As sete primeiras histórias postadas fazem parte de um grupo temático arbitrariamente criado e intitulado "Amores impossíveis".