tentativa de praticar a escrita a partir da criação de personagens antropomorfizados (ou não) que precisam encarar o tédio do dia-a-dia

29 de nov de 2007

Girafa Acadêmica e Camelo Israelense Terrorista como colegas de faculdade

Muita gente sabe da birra histórica entre a Girafa Acadêmica e o Elefante Analfabeto. Mas muito pouca gente conhece o fato de que outro personagem chave desta luta clássica, o Camelo Israelense Terrorista, também já se envolveu em algum ponto de sua vida acadêmica com a Girafa.

O Elefante e a Girafa foram colegas na pré-escola. Já é fato notório o que aconteceu na cena no parquinho.

Já a Girafa Acadêmica e o Camelo Israelense Terrorista foram colegas quando estavam na universidade, ainda durante a graduação. Ambos tiveram aulas na mesma academia, e inclusive na mesma sala de aula. Eram do mesmo ano, embora não tivessem exatamente a mesma idade.

A Girafa e o Camelo se formaram na mesma turma, e seus nomes encontram-se próximos um ao outro no quadro de formatura (na distância suficiente entre nomes com C e nomes com G).

Em aula, os dois eram considerados os mais espertos da turma. Entretanto, ambos possuíam perfis acadêmicos diferenciados. A Girafa era mais voltada para o estudo e a pesquisa, com o objetivo de tirar boas notas e obter um bom desempenho (ou seja, estimular o espírito competitivo na academia). Já o Camelo era um notório preguiçoso. Embora fosse bastante inteligente para articular estratégias interessantíssimas, ele não tinha muita paciência para estudar o suficiente para as provas de matérias de que não gostasse muito, e, como conseqüência, ele só tirava notas altas em provas cujos assuntos lhe interessavam.

Formas diferentes de encarar os estudos também levaram a uma diferenciação no caminho que ambos tomaram em uma etapa posterior em suas vidas. Hoje, sabe-se que o Camelo é um dos fortes aliados da IEA – de fato, dada à notória astúcia do Camelo, a ele atribui-se o papel de ser a cabeça pensante do grupo, cabendo ao Elefante apenas ganhar a fama pela histórica birra. Já a Girafa, como todo mundo sabe, é a líder de seu próprio grupo (o da Girafa Acadêmica), e até hoje milita em prol do espírito acadêmico.

Para a Girafa, só se chega ao conhecimento mediante um esforço intelectual, mínimo que seja. Não se tem como apreender as coisas sem que se faça um processo de conhecimento em ciclo completo. A Girafa também criou maneiras de medir esses esforços – conhecidas como avaliações nas instituições de ensino. A justificativa é simples: não haveria como estimular o espírito de competição acadêmica não houvesse parâmetros mínimos para auferir o desempenho dos alunos.

A cena no parquinho: a gênese da disputa entre o Elefante Analfabeto e a Girafa Acadêmica

Embora muito se saiba sobre a clássica disputa entre a Girafa Acadêmica e o Elefante Analfabeto, muito pouco ou quase nada se sabe a respeito das origens dessa verdadeira luta entre o Bel e o Mal. A disputa tem razão de ser. O motivo, entretanto, a primeira vista parece ridiculamente banal. Vejamos a história, portanto.

Tudo começou quando a Girafa Acadêmica e o Elefante Analfabeto eram colegas na pré-escola. Os dois estavam matriculados na escola dos animaizinhos toscos. A título de curiosidade, diga-se de passagem, naquela época, tanto o Elefante quanto a Girafa ainda eram analfabetos, na medida em que ainda se encontravam nos primórdios de seus anos de estudos. Eles passavam tardes e tardes desenhando e pintando em conjunto, na salinha de aula ao final do corredor da Escolinha.

Um dia, após mergulharem suas patas em tintas coloridas e distribuírem impressões digitais aleatórias sobre um largo e amplo papel pardo, a Girafa, o Elefante, e os demais animaizinhos (particularmente, havia a Lontra, o Leopardo e o Tigre, assim como a Pomba, a Marmota e o Leão, todos ainda filhotinhos) foram ao parquinho brincar ao sol, acompanhadas da professora Coruja. Naquele tempo, tardes de sol eram raras, e por isso os animais apreciavam tanto as brincadeiras ao ar livre. Também era nessas situações que eles tinham a oportunidade de interagir com os demais. O Elefante adorava particularmente essas situações, visto que os elefantes, em geral, são animais carrancudos e solitários.

Nesse dia em específico, em um tempo tão distante e remoto que chega a ser difícil precisar (a disputa entre o Elefante e a Girafa, além de clássica, é também histórica), a Girafa e o Elefante decidiram brincar no escorregador. Ora ia primeiro o Elefante, e depois a Girafa, ora invertia-se a ordem, e a Girafa escorregava primeiro. Nesse caótico vai e vem, nessa frenética subida e descida, escalada e escorregada, em um determinado momento, os dois tentaram usar o brinquedo exatamente ao mesmo tempo. Entretanto, assim como em um dos princípios básicos da física, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço simultaneamente. O resultado foi catastrófico. E impossível de se determinar quem fora o culpado.

Para o Elefante, que tentou escorregar primeiro, ficou parecendo que a Girafa o havia empurrado. Afinal, ele estava lá, tranqüilo, pronto para escorregar, e veio aquela “pescoçuda” por trás para derrubá-lo. Para a Girafa, entretanto, ficou a sensação de que era a vez dela de escorregar, mas que o Elefante havia se intrometido a sua frente. Os dois tinham razão, e ao mesmo tempo nenhum dos dois a tinha.

Ao cair estatelado no chão, ao final do trajeto no escorregador, o Elefante abriu o berreiro (lembre-se que a essa época o Elefante ainda era um filhotinho, suscetível às fortes emoções da vida impúbere). E não adiantava vir outros animais tentar acalmá-lo. O estrago havia sido feito. Nenhuma palavra de Lontra amiga ou da sábia Coruja iria reanimá-lo. Foi nesse mesmo instante que iniciou, embora de forma mais incipiente, a birra do Elefante contra a Girafa.


O que aconteceu após o fatídico episódio no parquinho pode ser facilmente deduzido por nossos leitores. A Girafa, mais forte emocionalmente, não se abalou com o fato e continuou na escolhinha. De fato, progrediu até os mais altos graus acadêmicos. O Elefante, traumatizado pelo fato, optou por abandonar a escola. E ganhou o apelido de Elefante Analfabeto.

Passados alguns instantes da cena no parquinho, uma profunda vergonha tomou conta do Elefante. Não demorou muito para que essa vergonha se transformasse em raiva, raiva daquela “pescoçuda” que o havia – ao menos supostamente – empurrado. Embora ainda estivesse na pré-escola, o Elefante jurou vingança. Mesmo que levasse dias, semanas, meses, ou até mesmo anos – ele havia de fazer alguma coisa para compensar a situação constrangedora pela qual passou frente a seus amiguinhos. E isso ficou remoendo em sua cabeça após ter decidido abandonar a escola.

A princípio o pai do Elefante não gostou muito da idéia de vê-lo abandonar a escola. Mas aos poucos foi percebendo o grau de resolutividade do filho, e por fim acabou se convencendo de que a melhor saída era mesmo liberá-lo da obrigação de ter de freqüentar aquele estabelecimento de ensino que tanta vergonha tinha despertado em seu filho. Ele até tentou localizar outra escola para o Elefante, mas não havia nas redondezas tantas escolhinhas para animaizinhos.

Apesar da singeleza da situação, e da aparente falta de relevância prática do fato, nascia aí um dos maiores embates de nossos tempos: uma batalha entre o apreço ao conhecimento (e o conseqüente estímulo ao espírito acadêmico competitivo) versus o desleixo e a despreocupação com o aprendizado (simbolizado pelo culto ao autodidatismo). Contrapunha-se, pois a Escola da Vida (do Elefante) à Escola da Academia (liderada pela Girafa).

Desde então, os demais indivíduos (sejam eles animaizinhos toscos ou não) invariavelmente se filiam a uma ou outra corrente. Ora são partidários da Girafa Acadêmica, ora seguem as diretrizes do Elefante Analfabeto. Mas estamos falando ainda apenas do começo da história... Muita coisa aconteceu desde o episódio mal-resolvido do escorregador. Seria um motivo muito banal para iniciar uma luta secular. Há mais fatos escondidos por trás da luta entre Girafa e Elefante. E é sobre isso que trata este livro: as origens, a evolução e a situação atual do embate Academia versus o mais puro Ostracismo.

Digamos que, dentre outras coisas, há um amor reprimido envolvido. Também há outros animais que também são protagonistas nessa história. Acompanhe essa história, e entenda porque o mundo é hoje dividido entre elefantinos e girafísticos, e as diferenças práticas entre se filiar à AGA ou a EIA.

De como a Girafa e o Elefante se conheceram inicialmente

O ano era difícil de se determinar. Mas era o princípio da vida da Girafa e do Elefante. Ambos eram apenas animaizinhos. Não se sabe ao certo se tinham a mesma idade, mas o fato é que os dois entraram juntos na escolhinha. E, por um acaso do destino, foram parar exatamente na mesma casse: a turma da professora Coruja, um poço de sapiência. A sala ficava ao final do corredor da escola dos animaizinhos toscos.

No primeiro dia de aula, a dona Coruja pediu que os animaizinhos se apresentassem. Ali naquela mesma sala se encontravam outros que anos mais tarde seriam grandes articuladores da disputa entre o conhecimento e a falta deste, como a Pomba Balboa (que, até então, era apenas Pomba, assim como o Elefante Analfabeto era apenas Elefante, a Girafa Acadêmica era apenas Girafa, e assim por diante; os filhotes eram puros e inocentes; seus nomes ainda não carregavam pesadas cargas semânticas em decorrência de seus importantes atos e tomadas de decisões perante a sociedade dos animaizinhos), a Ave Maria Cheia de Graça e a Marmota Cega. A título de curiosidade, um dos grandes articuladores do movimento em prol do Elefante, o Camelo Israelense Terrorista, não se encontrava, a essa época, no mesmo espaço físico dos demais. Como o próprio nome pelo qual ficou mundialmente conhecido sugere, o Camelo tem origem israelense, e, como tal, teve seus primeiros anos de educação em Israel – talvez por esse motivo ele tenha se tornado tão contrário aos ensinamentos predominantes no mundo ocidental. Talvez por esse mesmo motivo ele tenha se tornado tão frio e calculista, tão insensível quanto aos demais... Mas aqui não é ainda o momento de discorrer sobre a personalidade forte do Camelo. Apenas de mencionar seu papel importante no desenvolvimento das correntes antagônicas Girafa versus Elefante – até porque, sem um mentor intelectual que planejasse tudo por si, ou que ao menos colocasse no papel articulasse em frases verbalizadas tudo o que o Elefante pretendia, dificilmente essa história teria adquirido as dimensões que tem hoje.

Enfim, de volta à turma do Elefante e da Girafa... Não dá para negar que esses dois animaizinhos, ainda em suas respectivas infâncias, viveram bons e prazerosos momentos um na vida do outro. Eles não eram o que se pode chamar hoje de “grandes amigos”, mas, mesmo assim, gostavam-se um do outro. Ou melhor: um não tinha nada contra o outro, e um não se importaria, em, por exemplo, ter de emprestar o estojo de canetinhas para o outro. Ah! Bons tempos aqueles da infância... Onde tudo é tão puro, onde nada nem ninguém representa uma ameaça, onde todos são amigos... Há pureza e inocência no mundo quando somos crianças...

Um dia, a Coruja chegou em aula um tanto animada, e pediu que os animaizinhos se dividissem de dois a dois. Como os animais ainda pouco se conheciam, e não se tinha o que se pode chamar de afinidade para facilitar a divisão, a Coruja não viu outra saída senão impor-lhes uma divisão de par em par. Na falta de um critério melhor, a professora decidiu optar pelo critério da ordem alfabética. Vizinhos na chamada, o Elefante e a Girafa formaram um par. Se eles imaginassem o que os esperava no futuro, talvez tivessem dado maior atenção a essa triste e (in)feliz coincidência...

A tarefa era deveras fácil. Cada dupla de dois animaizinhos deveria fazer um desenho em parceria. Para isso, deveriam concordar nos elementos que cada um colocaria no papel, e nas cores que utilizariam. A Coruja explicou-lhes que era muito importante que ambos decidissem tudo em comum acordo, como uma forma de exercitar o espírito de cooperação.

Nessa situação, o Elefante fora um tanto passivo. Ele ficou embasbacado com a perspicácia da Girafa, que, no alto de seus 2 metros de altura, possuía uma habilidade tremenda com lápis, canetas, tintas e borracha. A Girafa - um tanto egoisticamente, é verdade -, foi se deixando envolver pelo manusear do pincel, e quando viu, já tinha feito todo o desenho, sem nem ao menos consultar o Elefante.

Esse episódio aparentemente banal, a princípio, foi um dos fatores que viriam a acentuar, anos mais tarde, a discrepância nos modos de vista do mundo das posições girafística se elefantinas.

O que a Girafa estava a fazer era um dos pilares de sua filosofia de vida: em nome do espírito acadêmico de competição, desde cedo a Girafa sempre procurou fazer o melhor de si, como uma forma de se destacar dos demais. Para isso, muitas vezes, ela teve de passar por cima do livre arbítrio de outros animaizinhos. Mas tudo em nome de um bem maior: o espírito competitivo. Ao assumir o pincel, a Girafa tentava garantir para si o título de melhor desenho da classe, uma vez que ela sabia que possuía habilidades ímpares de desenho. Entretanto, ao não consultar o Elefante, ela demonstrava um excessivo senso de egoísmo, contrário aos ditames de uma sociedade atual, voltada para a cooperação. Ela também foi contra ao que de fato se estava tentando ensinar com o exercício: o espírito de cooperação. Caso ela tivesse um pouquinho mais de discernimento na situação, e tivesse podido perceber que o real propósito da atividade proposta não era fazer o melhor desenho possível, e sim aprender a noção de cooperação, talvez ela não tivesse se adiantado e feito o desenho todo sozinha. Mas ela tinha compreendido, sim, ao menos a idéia de que deveria ter contado com a colaboração do Elefante para a execução da tarefa.

Fosse o caminho inverso – o Elefante a dominar o pincel, e a Girafa a olhá-lo, atônita – talvez a situação atual do conhecimento no mundo fosse completamente diferente. Essa fora a primeira situação em que a Girafa mostrou-se superior ao Elefante – embora muitos argumentem que, historicamente, quem teria se destacado nesse episódio tenha sido o Elefante, por ter aceito a situação – ora, mas desde quando alguém se destaca por ser passivo? A Girafa fora, sim, a grande protagonista da situação. Mesmo que tenha se utilizado de meios escusos para obter esse fim, é verdade. Assim, é com grande maestria que muitos atribuem a esse episódio o primeiro embate real entre a Girafa Acadêmica e o Elefante Analfabeto – visto que nisso já estava presente o profundo conhecimento girafístico em contraposição à ignorância elefantina.

Histórias passadas

Outras informações

  • - Nas cinco primeiras histórias, a ênfase foi na criação e descrição de personagens. A ênfase atual é nos diálogos, e/ou na elaboração de um final para os textos.
  • - As sete primeiras histórias postadas fazem parte de um grupo temático arbitrariamente criado e intitulado "Amores impossíveis".