tentativa de praticar a escrita a partir da criação de personagens antropomorfizados (ou não) que precisam encarar o tédio do dia-a-dia

29 de nov de 2007

De como a Girafa e o Elefante se conheceram inicialmente

O ano era difícil de se determinar. Mas era o princípio da vida da Girafa e do Elefante. Ambos eram apenas animaizinhos. Não se sabe ao certo se tinham a mesma idade, mas o fato é que os dois entraram juntos na escolhinha. E, por um acaso do destino, foram parar exatamente na mesma casse: a turma da professora Coruja, um poço de sapiência. A sala ficava ao final do corredor da escola dos animaizinhos toscos.

No primeiro dia de aula, a dona Coruja pediu que os animaizinhos se apresentassem. Ali naquela mesma sala se encontravam outros que anos mais tarde seriam grandes articuladores da disputa entre o conhecimento e a falta deste, como a Pomba Balboa (que, até então, era apenas Pomba, assim como o Elefante Analfabeto era apenas Elefante, a Girafa Acadêmica era apenas Girafa, e assim por diante; os filhotes eram puros e inocentes; seus nomes ainda não carregavam pesadas cargas semânticas em decorrência de seus importantes atos e tomadas de decisões perante a sociedade dos animaizinhos), a Ave Maria Cheia de Graça e a Marmota Cega. A título de curiosidade, um dos grandes articuladores do movimento em prol do Elefante, o Camelo Israelense Terrorista, não se encontrava, a essa época, no mesmo espaço físico dos demais. Como o próprio nome pelo qual ficou mundialmente conhecido sugere, o Camelo tem origem israelense, e, como tal, teve seus primeiros anos de educação em Israel – talvez por esse motivo ele tenha se tornado tão contrário aos ensinamentos predominantes no mundo ocidental. Talvez por esse mesmo motivo ele tenha se tornado tão frio e calculista, tão insensível quanto aos demais... Mas aqui não é ainda o momento de discorrer sobre a personalidade forte do Camelo. Apenas de mencionar seu papel importante no desenvolvimento das correntes antagônicas Girafa versus Elefante – até porque, sem um mentor intelectual que planejasse tudo por si, ou que ao menos colocasse no papel articulasse em frases verbalizadas tudo o que o Elefante pretendia, dificilmente essa história teria adquirido as dimensões que tem hoje.

Enfim, de volta à turma do Elefante e da Girafa... Não dá para negar que esses dois animaizinhos, ainda em suas respectivas infâncias, viveram bons e prazerosos momentos um na vida do outro. Eles não eram o que se pode chamar hoje de “grandes amigos”, mas, mesmo assim, gostavam-se um do outro. Ou melhor: um não tinha nada contra o outro, e um não se importaria, em, por exemplo, ter de emprestar o estojo de canetinhas para o outro. Ah! Bons tempos aqueles da infância... Onde tudo é tão puro, onde nada nem ninguém representa uma ameaça, onde todos são amigos... Há pureza e inocência no mundo quando somos crianças...

Um dia, a Coruja chegou em aula um tanto animada, e pediu que os animaizinhos se dividissem de dois a dois. Como os animais ainda pouco se conheciam, e não se tinha o que se pode chamar de afinidade para facilitar a divisão, a Coruja não viu outra saída senão impor-lhes uma divisão de par em par. Na falta de um critério melhor, a professora decidiu optar pelo critério da ordem alfabética. Vizinhos na chamada, o Elefante e a Girafa formaram um par. Se eles imaginassem o que os esperava no futuro, talvez tivessem dado maior atenção a essa triste e (in)feliz coincidência...

A tarefa era deveras fácil. Cada dupla de dois animaizinhos deveria fazer um desenho em parceria. Para isso, deveriam concordar nos elementos que cada um colocaria no papel, e nas cores que utilizariam. A Coruja explicou-lhes que era muito importante que ambos decidissem tudo em comum acordo, como uma forma de exercitar o espírito de cooperação.

Nessa situação, o Elefante fora um tanto passivo. Ele ficou embasbacado com a perspicácia da Girafa, que, no alto de seus 2 metros de altura, possuía uma habilidade tremenda com lápis, canetas, tintas e borracha. A Girafa - um tanto egoisticamente, é verdade -, foi se deixando envolver pelo manusear do pincel, e quando viu, já tinha feito todo o desenho, sem nem ao menos consultar o Elefante.

Esse episódio aparentemente banal, a princípio, foi um dos fatores que viriam a acentuar, anos mais tarde, a discrepância nos modos de vista do mundo das posições girafística se elefantinas.

O que a Girafa estava a fazer era um dos pilares de sua filosofia de vida: em nome do espírito acadêmico de competição, desde cedo a Girafa sempre procurou fazer o melhor de si, como uma forma de se destacar dos demais. Para isso, muitas vezes, ela teve de passar por cima do livre arbítrio de outros animaizinhos. Mas tudo em nome de um bem maior: o espírito competitivo. Ao assumir o pincel, a Girafa tentava garantir para si o título de melhor desenho da classe, uma vez que ela sabia que possuía habilidades ímpares de desenho. Entretanto, ao não consultar o Elefante, ela demonstrava um excessivo senso de egoísmo, contrário aos ditames de uma sociedade atual, voltada para a cooperação. Ela também foi contra ao que de fato se estava tentando ensinar com o exercício: o espírito de cooperação. Caso ela tivesse um pouquinho mais de discernimento na situação, e tivesse podido perceber que o real propósito da atividade proposta não era fazer o melhor desenho possível, e sim aprender a noção de cooperação, talvez ela não tivesse se adiantado e feito o desenho todo sozinha. Mas ela tinha compreendido, sim, ao menos a idéia de que deveria ter contado com a colaboração do Elefante para a execução da tarefa.

Fosse o caminho inverso – o Elefante a dominar o pincel, e a Girafa a olhá-lo, atônita – talvez a situação atual do conhecimento no mundo fosse completamente diferente. Essa fora a primeira situação em que a Girafa mostrou-se superior ao Elefante – embora muitos argumentem que, historicamente, quem teria se destacado nesse episódio tenha sido o Elefante, por ter aceito a situação – ora, mas desde quando alguém se destaca por ser passivo? A Girafa fora, sim, a grande protagonista da situação. Mesmo que tenha se utilizado de meios escusos para obter esse fim, é verdade. Assim, é com grande maestria que muitos atribuem a esse episódio o primeiro embate real entre a Girafa Acadêmica e o Elefante Analfabeto – visto que nisso já estava presente o profundo conhecimento girafístico em contraposição à ignorância elefantina.

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Histórias passadas

Outras informações

  • - Nas cinco primeiras histórias, a ênfase foi na criação e descrição de personagens. A ênfase atual é nos diálogos, e/ou na elaboração de um final para os textos.
  • - As sete primeiras histórias postadas fazem parte de um grupo temático arbitrariamente criado e intitulado "Amores impossíveis".